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DICAS PARA OS BICIGRINOS E PEREGRINOS



DICAS PARA OS BICIGRINOS E PEREGRINOS
Caminho Francês de Santiago de Compostela em duas rodas
– Do Sul da França até Finisterra, mais de 900 quilômetros de “aventura” e encontro espiritual

Marcello Medeiros

Em algum momento da vida você pode ficar desacreditado. Pode perder a confiança e autoestima, enfrentar desertos que parecem não ter fim mesmo tendo um quintal florido diante dos seus olhos. Grandes vitórias em um mundo que se mostra tão desigual e maldoso não parecem ser suficientes para continuar lutando. Nesses momentos é preciso se agarrar a alguma coisa, buscar um rumo que ajude a abrir os olhos para retomar as batalhas – que na verdade nunca terão fim. E, para muita gente, uma fórmula quase que mágica para recolocar a vida nos trilhos é a busca pela espiritualidade e reconexão com tudo que está à sua volta. Diante dessa necessidade, muitos acabam chegando ao milenar Caminho de Santiago de Compostela, uma rota de peregrinação fortemente ligada à história do cristianismo e que hoje vai muita além da religião: Leva anualmente milhares de pessoas até a cidade de mesmo nome, na Espanha, em busca de um encontro com o inexplicável. E foi isso que aconteceu comigo. Precisava encontrar um novo caminho e busquei nos muitos quilômetros percorridos de bicicleta entre o Sul da França e o Norte da Espanha em maio passado. Passei por muitas experiências com analogias diretas aos acontecimentos da vida, momentos que nunca vão sair da minha memória.

O Caminho
Declarado pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade, o Caminho de Santiago de Compostela é a peregrinação mais conhecida do mundo, percorrida desde a Idade Média. Conta a história que Tiago era um dos discípulos mais próximos de Jesus e que esteve presente em momentos importantes da sua vida. Após a morte de Cristo, ele começou a peregrinar e espalhar a sua palavra uma antiga rota pagã, utilizada anteriormente por Napoleão para invadir a Espanha. De regresso a Jerusalém, foi decapitado pelo Rei Herodes, e seus restos mortais foram levados de volta à Espanha por dois de seus seguidores e enterrado na Galícia. Em princípios do milênio atual, continua a lenda, um camponês chamado Pelayo, guiado por muitas estrelas, encontrou em um grande campo a sepultura do apóstolo. A notícia correu mundo, lançando uma legião de cristãos a peregrinar até Santiago de Compostela, cidade que se formou na região. “Compostela” provém de campo de estrelas. Desde então multidões de peregrinos, de anônimos a famosos, vêm percorrendo este caminho mágico, o único no mundo que não se formou por motivos comerciais. Mais de 1.200 anos depois, o roteiro não tem mais uma pegada tão religiosa, mas sim espiritual e também cultural e turística. E a procura é cada vez maior pela magia do Caminho, pelo encontro com si mesmo, pelos aprendizados com a semelhança com a vida e a troca de experiências com tantos que têm a mesma essência em várias partes do mundo.

Os caminhos do Caminho
Quando se fala na rota jacobeia, a maioria das pessoas acredita se tratar de somente uma. Porém, são dezenas que levam até a cidade de Santiago de Compostela, a partir da França, várias regiões da Espanha e Portugal. Há quem diga ainda que “o Caminho pode começar na porta da sua própria casa, a partir do momento que você decide fazê-lo”. A mais famosa delas, e que recebeu o citado título da UNESCO em 1993, é a que tem início em Saint-Jean-Pied-Port, no Sul da França. São aproximadamente 800 quilômetros até a Praça do Obradoiro, passando por diferentes regiões e consequentemente terrenos. E foi esse o caminho escolhido por mim, o tradicional Francês.

A opção pelas duas rodas
Da grande maioria das pessoas que busca algum dos caminhos, mais de 90%, segue até Santiago a pé – os peregrinos. Em segundo estão os ciclistas – os bicigrinos. E foi nessa categoria que me encaixei. Desde muito jovem tinha vontade de colocar uma bicicleta na estrada, sentir o vento no rosto e ter a possibilidade de vivenciar melhor uma viagem. Quando “descobri” o Caminho de Santiago e sua magia, soube imediatamente que era isso que precisava fazer.

A preparação
Pedalo desde menino e me dedico ao montanhismo e escalada há 21 anos, ou seja, sou bastante ativo. Porém, para realizar bem meu objetivo, iniciei uma preparação específica para o mountain bike. Foram aproximadamente seis meses de longas e duras pedaladas por rotas que já conhecia e outras que acabei descobrindo em nossa região nessa etapa. Me preparei para “sobrar fisicamente” em Santiago, deixando para a cicloviagem apenas a missão de crescer espiritual, emocional e culturalmente. Outra dica é treinar carregando peso semelhante ao que vai levar.

A bicicleta
Muitos que fazem o Caminho em duas rodas alugam a bicicleta por lá. Porém, o preço é salgado e você pode receber um equipamento que não está acostumado ou que não terá certeza se vai atender sua expectativa. Por isso optei em levar a minha companheira de aventuras, já atualizada de acordo com as minhas necessidades. Mesmo pagando uma taxa para despachar, sai muito mais em conta. Além disso, tive o apoio do pessoal da Cycle São Cristóvão para fazer uma revisão geral antes da viagem e diminuir a chance de problemas (no meu caso, não tive nenhum e nem sequer um pneu furado…). Levando a sua ou alugando uma bike, é bom saber pelo menos o básico de mecânica e levar alguns materiais que podem ser necessários em reparos. Em vários momentos você irá passar por trechos sem nenhum tipo de ocupação humana, consequentemente não havendo a possibilidade de um resgate ou auxílio mesmo da empresa contratada.

Como chegar e custos
A principal cidade base na Espanha para o Caminho é Madrid. De lá é possível seguir de trem até uma localidade vizinha a Saint-Jean ou fazer mais um trecho de avião. Nessa segunda possibilidade, escolhida por mim, o viajante segue até Pamplona e lá pode pegar um ônibus (Que custa 22 Euros a passagem) ou, se encontrar com outros peregrinos/bicigrinos, dividir um táxi até o Sul da França. Essa última etapa da viagem dura aproximadamente 1h30. Quanto aos custos da viagem, a média de gastos é de 30/35 Euros por dia, contando hospedagem e alimentação. Nos albergues, paguei 5 Euros no municipais e até 18 em um particular.

Documentação
Não é preciso visto, sendo “liberados” 90 dias de estadia. Basta ter passaporte regular, contratar obrigatoriamente um seguro saúde para viagem (que sai em torno de R$ 300) e comprovar as condições financeiras para ficar no período estipulado da viagem. Apesar das informações sobre essa última exigência, não me foi cobrado nos aeroportos. Quanto à credencial do peregrino, que garante hospedagem nos albergues e a compostela no final da aventura – documento da Igreja Católica que comprova a peregrinação – pode ser obtida em Saint-Jean, na oficina de acolhida ao Peregrino. Porém, você pode sair do país já com esse documento graças ao excelente trabalho realizado pela Associação Brasileira dos Amigos do Caminho de Santiago (https://www.caminhodesantiago.org.br/ ), que trata com muito carinho e atenção todos os interessados na milenar rota, disponibilizando, além da credencial, mapas e diversas outras informações.

Divisão do Caminho
A pé são aproximadamente 30 dias. Em duas rodas, muitos fazem até em um terço disso. No meu caso, foram 14 dias até Santiago e mais um para chegar a Finisterra. Não porque não tinha condições de “acelerar” mais e reduzir o tempo, mas pelo desejo de viver o Caminho ao máximo, curtindo e conhecendo locais históricos e icônicos na rota jacobeia. Dessa forma, houve dia que pedalei menos que 30, como quando quis dormir no tradicional albergue de Roncesvalles, com mais de 800 anos de história, e etapa com 120 quilômetros no trecho da Meseta Central, plana e repetitiva. No dia 12 de pedal, por exemplo, poderia ter seguido direto para Santiago de Compostela e não pernoitado em O Pedrouzo/Árzua. Porém, queria concluir a cicloviagem pela manhã, leve, descansado e de coração aberto para contemplar esse mágico momento. Assim, na última etapa antes da grande catedral foram apenas 21 quilômetros.

As etapas feitas por mim
Dia 01 – Saint-Jean-Pied-Port a Roncesvalles, 28km e 1.408m de altimetria
Dia 02 – Roncesvalles a Pamplona, 45km e 759m de altimetria
Dia 03 – Pamplona a Estella, 50km e 943m de altimetria
Dia 04 – Estella a Logrono, 55km e 901m de altimetria
Dia 05 – Logrono a Belorado, 74km e 1.180m de altimetria
Dia 06 – Belorado a Tardajos, 70km e 843m de altimetria
Dia 07 – Tardajos a Frómista, 57km e 601m de altimetria
Dia 08 – Frómista a Léon, 120km e 702m de altimetria
Dia 09 – Léon a Astorga, 57km e 492m de altimetria
Dia 10 – Astorga a Ponferrada, 55km e 861m de altimetria
Dia 11 – Ponferrada a O Cebreiro, 56km e 1226m de altimeria
Dia 12 – O Cebreiro a Portomarin, 66km e 1076m de altimetria
Dia 13 – Portomarin a O Pedrouzo, 78km e 1568m de altimetria
Dia 14 – O Pedrouzo a Santiago, 21km e 384m de altimetria
Dia 15 – Santiago a Finisterra, 96km e 1.843m de altimetria

Caminho “de verdade”
A rota de peregrinação nasceu pelos pés dos caminhantes. Dessa forma, mesmo com o advento da bicicleta, em uma parte recente da história, há vários trechos onde pedalar é inviável. Pontos íngremes, pedregosos ou escorregadios exigem que se desça da “magrela” e a empurre, junto com o peso da bagagem. Fiz isso muito mais do que imaginei que precisaria, mas segui 95% pela rota original. Só deixei de pedalar pelo caminho “de verdade” quando houve necessidade por questões climáticas. Na saída do Cebreiro, por exemplo, nevou absurdamente. O frio extremo e terreno molhado me obrigaram a descer pela estrada asfaltada até Triacastela.

Equipamentos da Trilhas & Rumos
A Trilhas & Rumos foi minha grande companheira nessa mágica viagem. Não fossem os materiais impermeáveis e o conforto dos equipamentos teria passado grandes dificuldades em algumas etapas. Entre Belorado e San Juan Ortega, por exemplo, peguei muita chuva. Na subida do Cebreiro mais chuva e na descida neve intensa… Optei em levar a mochila Sec50 no lugar dos alforges, abrigando toda minha bagagem protegida no bagageiro (e tirando para levar nas costas quando necessário), o Anorak Storm que enfrentou muita água e vento, além da calça impermeável e o Poncho Neblina. As pequenas toalhas com grande absorção também foram fundamentais para reduzir o volume da bagagem, assim como o saco de dormir Nano Pluma. Nos dias mais gelados, a segunda pele foi uma “mão na roda”, junto com o gorro inverno.

Outras dicas
Não pedale ou caminhe pensando apenas em chegar a Santiago. Viva intensamente cada momento, cada cantinho que passar. Não se preocupe em não encontrar lugar para dormir nos albergues. São vários nas grandes cidades e, se todos estiverem ocupados, basta seguir alguns quilômetros para conseguir a acolhida. Se estiver em dúvida, muitos aceitam reservas através de sites especializados. No meu caso, só não consegui hospedagem em Burgos, visto que cheguei em um sábado, dia que muitos começam o caminho, e justamente nesse local onde faltam exatamente 500 km para Santiago.
Não se preocupe se não tiver companhia. Poderá ir sozinho, mas nunca estará solitário. Não teve um dia que não cruzei com dezenas ou centenas de pessoas, entre elas muitos brasileiros. Em uma das etapas, por exemplo, conheci o André Luís de Oliveira, de Jundiaí, São Paulo, que acabou sendo companheiro durante três dias e na chegada à praça do Obradoiro.
Puente La Reina, Alto do Perdão, Bodegas Irache, Hospital de Órbigo, Porta do Perdão, Castrojeriz… Guarde esses nomes e pesquise outros locais que merecem ser mais do que visitados, merecem ser vividos. Com certeza passará por experiências que nunca sairão da sua memória, lembranças que motivarão a realização de outros caminhos e, logicamente, a vontade de voltar a percorrer o tradicional Francês. Esse é o meu caso. Desde que retornei, não teve um dia que não pensei ou falei nessa viagem, que não me imaginei pedalando leve e sorridente novamente pelas estradas e trilhas que levam até Santiago de Compostela, repetindo por dezenas de vezes, sem me aborrecer, “Bueeeeen Camino”.

* Marcello Medeiros é Biólogo e Jornalista, montanhista e escalador há mais de duas décadas e “bicicleteiro” desde menino (instagram/mochileiro_marcello)



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